Os outros negócios da mídia brasileira

Que negócios possuem os principais grupos de mídia no Brasil? Os interesses empresariais desses grupos podem representar conflitos de interesses na cobertura que seus veículos de mídia realizam sobre diversos temas, como educação pública, saúde, alimentação, política econômica e as políticas das cidades.

A maior parte dos 26 grupos de mídia estudados nesta pesquisa possuem uma série de negócios na área de mídia, como podemos ver nos indicadores sobre concentração horizontal e sobre propriedade cruzada dos meios de comunicação. Todos os grupos estudados possuem pelo menos dois tipos de veículo de mídia e um número grande deles possuem diversos veículos de mídia impressa, online, TV e rádio, além de outros negócios de mídia como agências de notícias, operadoras de TV a cabo, produtoras de cinema, gravadoras, entre outras.

No entanto, grande parte desses grupos possuem também negócios em outros setores da economia, entre os quais se destacam os setores de educação, saúde, mercado financeiro, mercado imobiliário e agronegócio.

Educação e saúde: serviços públicos na mão de agentes privados

Na área de educação básica e universitária, um dos grupos de maior destaque é o Grupo Objetivo, um dos principais conglomerados de educação privada do país, formado por escolas, cursos pré-vestibulares, universidades (UNIP – Universidade Paulista), editora de produção de material didático e agências de propaganda. É dono do Grupo Mix de Comunicação, composto pela rede de rádio Mix FM e por emissoras de TV. Outro destaque é Igreja Adventista do Sétimo Dia, denominação evangélica de origem norte-americana dona da Rede Novo Tempo de Comunicação, que possui também escolas e universidades privadas no país (UNASP - Centro Universitário Adventista de São Paulo, IAP - Instituto Adventista Paranaense, FADMINAS – Faculdade Adventista de Minas Gerais, Faculdade Adventista da Bahia e Faculdade Adventista da Amazônia). Ainda na educação superior, os proprietários da TV Vitoriosa (SBT Uberlândia, MG) e da TV Goiânia (Band Goiânia, GO), entre eles o ex-senador Wellington Salgado (PMDB-MG, 2005-2010) são também donos da Associação Salgado de Oliveira de Educação e Cultura, mantenedora das Universidades Universo e Unitri.

Na área de educação à distância, o Grupo Folha é proprietário da UOL edtech, um dos maiores grupos do setor, formado por seis empresas que desenvolvem tecnologias educacionais para outras empresas, profissionais e instituições de ensino. A Cresça Brasil é provedora de cursos online nas áreas profissionalizante (negócios, artesanato, culinária, informática, saúde, beleza, entre outros), de idioma e de concursos. O Portal Educação oferece cursos livres, profissionalizantes e pós-graduação à distância nas áreas de Ciências Biológicas e da Saúde, Ciências Exatas e Tecnologia e Ciências Humanas e Sociais. Os cursos de pós-graduação são oferecidas em parceria com a Universidade Católica Dom Bosco, o Centro Universitário do Sul de Minas e a Pontifícia Universidade Católica – PUC RS. A Ciatech produz tecnologias educativas voltadas para corporações, como plataformas digitais de aprendizagem, programas para lideranças e projetos de realidade virtual aumentada. O Concurso Virtual e A Casa do Concurseiro oferecem cursos preparatórios para editais de seleção de cargos públicos. Por fim, o EA Certificações prepara os alunos para obter certificações financeiras.

Na área de educação executiva, o Grupo Alfa é apoiador da Fundação Dom Bosco, uma instituição autônoma e sem fins lucrativos que oferece certificações internacionais pelo Europen Quality Improvement System (EQUIS) e pela The Association of MBAs (AMBA®). O dono do Grupo Alfa, Aloysio Faria, dá nome a um dos campi da fundação, localizado em Nova Lima – MG, e seu genro, Luiz Felipe de Souza Lima Vasconcellos, faz parte do Conselho Curador, órgão deliberativo máximo da FDC.

Alguns grupos de mídia possuem também fundações e projetos educacionais com atuação nas redes públicas de ensino. O principal nesta área é a Fundação Roberto Marinho (FRM), criada em 1977. Seu principal projeto é o Telecurso, criado no início da fundação para acelerar a aprendizagem nos ensinos Fundamental e Médio e na Educação de Jovens e Adultos (EJA), através da televisão, seguindo diretrizes da Lei 5.692/1971, que reconhecia o supletivo como opção de ensino. O projeto se tornou política pública nos anos 1990 e, segundo sua página institucional, “de 1995 a 2016, 1,6 milhão de estudantes de escolas públicas, que estavam fora da escola ou em defasagem idade-série, foram formados pelo Telecurso em 12 estados do Brasil. Também continuou a ser implementado em ONGs, empresas, associações comunitárias, sindicatos e igrejas de todo o país”. O projeto é financiado pelos governos estaduais em parceria com empresas e instituições; hoje, está presente, através de contrato entre a fundação e os governos estaduais, nos estados do Minas Gerais, Pará, Paraíba, Pernambuco e Rondônia. Outras estados, como Acre e Amazonas, já contrataram a fundação e hoje desenvolvem o projeto por conta própria. A FRM também faz a concepção de projetos de museus públicos, como o Museu da Língua Portuguesa e o Museu do Futebol, em São Paulo, e o MAR – Museu de Arte do Rio e o Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, administrados posteriormente por organizações sociais, com acompanhamento da FRM.

O Grupo RBS possui a Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho, que realiza o Prêmio RBS de Educação – Para Entender o Mundo, que premia professores, escolas e alunos que realizam projetos de leitura. Para isso, estabelece parcerias com outras entidades públicas e privadas. Na área de educação, a RBS também desenvolve parcerias com a PUC RS - Pontifícia Universidade Católica do RS: além da parceria na produção de conteúdos, como o projeto Caminhos para a Vitória, durante as Olimpíadas de 2016, o Grupo RBS e a PUC-RS assinaram um convênio em que profissionais da empresa e acadêmicos da instituição trabalham em conjunto para o desenvolvimento de projetos em comunicação digital para os veículos da empresa, no Tecnopuc (Parque Científico e Tecnológico da universidade). O projeto recebeu financiamento da Finep, empresa pública brasileira de fomento à ciência, tecnologia e inovação do Governo Federal.

O Grupo Bandeirantes é outro que desenvolve ações nessa área. A rádio BandNews realiza, desde 2001, em parceria com a Fundação Itaú Social, o Prêmio Escola Voluntária, que tem o objetivo de "formar, incentivar e reconhecer escolas de Ensino Fundamental e Médio, públicas ou privadas, que desenvolvem projetos de voluntariado junto à comunidade”. A cada edição são selecionadas dez escolas, que recebem, de acordo como site, "uma equipe da Rádio Bandeirantes que transmite aos alunos conceitos de radiojornalismo e orientações práticas sobre como elaborar conteúdo para uma rádio. As reportagens produzidas pelos estudantes são veiculadas na programação da emissora. Por fim, uma comissão julgadora seleciona os melhores trabalhos, que recebem prêmios em dinheiro para serem aplicados nas próprias escolas.

Outros grupos desenvolvem projetos menores e menos relacionados à educação formal, como o Grupo SADA (Fundação Medioli que, mantém, entre outras coisas, uma creche), o Grupo Record, que mantem o Instituto Ressoar, a Igreja Universal do Reino de Deus – IURD, que mantém a Associação Beneficente Projeto Nordeste – ABPN (projeto Nova Canaã), plataforma política do bispo Marcelo Crivella, atual prefeito do Rio de Janeiro, a Igreja Renascer em Cristo, que tem a ONG Gideão da Conquista, a Igreja Adventista, que desenvolve projetos sociais através da ADRA Brasil, e o Grupo Sílvio Santos, que criou o SBT do Bem.

É importante citar também as estreitas relações que o Grupo Abril manteve com a área de educação, tanto pública quanto privada, ao longo de toda a sua história. Ainda nos anos 1960, o grupo fundado por Victor Civita desenvolveu materiais educacionais para o MOBRAL - Movimento Brasileiro de Alfabetização, órgão criado pela Ditadura Militar (1964-1985) para alfabetização que substituiu o método de educador Paulo Freire usado até então. Nos anos 1980, fundou a Fundação Victor Civita, que criou uma série de publicações voltadas para a educação e prêmios voltados a profissionais de educação com atuação de destaque. O grupo também comprou as editoras de livros didáticos Ática e Scipione (tendo mais uma vez como principal cliente o Ministério da Educação) e fundou a Abril Educação, outro dos maiores grupos de educação privada do Brasil, que reuniu os sistemas de ensino Anglo, Ser, Maxi e GEO, o Curso e Colégio pH, o Grupo ETB - Escolas Técnicas do Brasil, o curso preparatório para concursos SIGA, a Escola Satélite, as escolas de idiomas Red Balloon e Wise Up e a comunidade online de ensino de inglês Livemocha. As principais revista da Fundação, Nova Escola e Gestão Escolar, foram cedidas recentemente à Fundação Paulo Lemann Lemann, o homem mais rico do Brasil, dono do conglomerado de cervejas InBev e um dos fundadores do portal IG; Lemann tem desenvolvido projetos de gestão privada da educação pública através de sua fundação. Já a Abril Educação se tornou Somos Educação em 2014, depois que o Grupo Abril vendeu a maior parte de suas ações para a Tarpon Investimentos e o Governo de Singapura.

Além disso, o antigo presidente do Grupo Abril, Roberto Civita, também fez parte do Conselho Deliberativo da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) onde, em 2010, idealizou o IAEJ - Instituto de Altos Estudos em Jornalismo, responsável pelo curso de Pós Graduação em Jornalismo com Ênfase em Direção Editorial, transformado posteriormente em Pós-Graduação em Jornalismo Digital. Civita era também conselheiro da ONG Instituto Verdescola, fundado por sua esposa, Maria Antônia Civita, em 2005. O instituto atua nas áreas de socieducação, geração de renda e qualificação profissional. Tem os títulos de OSCIP - Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, emito pelo Ministério da Justiça, e o CEBAS – Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social, emitido pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, que facilitam a parceria da entidade com o poder público e a isenta de alguns impostos. Além disso, a ONG tem patrocinadores e apoiadores o Banco Itaú, a Petrobras/Governo Federal e o Instituto Península, presidido pela empresária Ana Maria Diniz, idealizadora da parceria público-privada Todos pela Educação, a Somos Educação (ex-Abril Educação) e o Itaú Social (essas beneficiárias de leis de incentivo como FUMCAD, Cultura e Esporte), o governo do Estado de São Paulo, a Fundação Lemann e o Sesi SP.

Na área de saúde, a Igreja Adventista do Sétimo dia possui o Cevisa - SPA Médico Educativo, a Clínica e Espaço Vida Natural, o Hospital Adventista, com unidades em Belém, Manaus, São Paulo, Campo Grande e Rio de Janeiro, além do Plano de Saúde Proasa. O Grupo Hapvida, sistema de saúde privado que conta com uma administradora de planos de saúde, hospitais e laboratórios, é dono também do Sistema Opinião de Comunicação, que possui emissoras afiliadas às redes SBT (TV Ponta Verde/SBT Alagoas, TV Ponta Negra/SBT Natal e TV Borborema/SBT Paraíba) e Bandeirantes (TV Manaíra/Bandeirantes Paraíba). Podemos citar também a TV Centro Oeste, afiliada da Rede Vida em Cascavel, de propriedade do médico Marcos Solano Vale, dono também da Radio Mundial FM de Toledo, da Gazeta Mundial, Da Sol Linhas Aéreas, do Hospital de Olhos de Cascavel, do Hospital Doutor Prime - Assistencia A Saude Familiar, do Banco de Olhos de Cascavel, entre outras empresas do rama da saúde; em 2014, foi candidato a deputado federal pelo PPS-PR, mas não foi eleito.

Há ainda o Grupo NC, de propriedade de dois bilionários brasileiros listados pela revista Forbes: o empresário paulista do ramo farmacêutico Carlos Sanchez, com 75% de participação, e o gaúcho Lírio Parisotto, dono do grupo petroquímico Videolar-Innova e investidor financeiros em empresas de energia e siderurgia, com 25% de participação (Aguiar, 2015). O Grupo NC foi formado em 2014, reunindo as atividades farmacêuticas da família Sanchez a outros ramos de atividades. No ramo farmacêutico o grupo é dono das empresas: EMS, Brace Farma, Legrand, Germed Pharma, Novamed e CPM; a NC Par é dona ainda da Bionovis, empresa de biotecnologia farmacêutica que contra com o apoio do BNDES e da FINEP. No rama de investimento financeiro, o grupo é dono da Privety Equity, que tem o objetivo de” construir um portfólio de participações em companhias variadas. Em geral, o NC Invest prioriza participações minoritárias no capital das empresas, no entanto, busca ter presença ativa em conselhos e comitês”. O grupo investe ainda no ramo imobiliário através da empresa 3D Reality. O ramo mais recente de atuação do grupo é o de energia: no final de 2016, anunciaram a aquisição da Odebrecht Energias Alternativas, subsidiária da Odebrecht Energia, que detém os ativos de energia eólica do Complexo Eólico Corredor do Senandes, localizado no município de Rio Grande (RS). Seu slogan é: “Um grupo que nasceu de uma farmácia para conquistar o Brasil”. Em 2016, o Grupo RBS, um dos maiores grupos de mídia regional do Brasil, vendeu suas emissoras de TV e várias emissoras de rádio sediadas no estado de Santa Catarina, além de jornais no mesmo estado, para o Grupo NC. Os grupos permanecem parceiros, pois os conteúdos de seus veículos são reunidos no portal ClicRBS.

Empreendimentos imobiliários e mercado financeiro

Dos 26 grupos de mídia listados na pesquisa, oito possuem negócios no setor financeiro. O mais importante neste setor é o Grupo Alfa, conglomerado formado pelo Banco Alfa, Banco Alfa de Investimento, Alfa Financeiro, Alfa Leasing, Alfa Corretora, Alfa Seguradora, Alfa Previdência, além de negócios em diversos outros setores, incluindo a mídia (Rede Transamérica de rádio). Seu proprietário, Aloysio de Andrade Faria, está na lista da Forbes como um dos bilionários brasileiros, e foi citado acima como um dos apoiadores da Fundação Dom Bosco. O Grupo Ongoing, dono do portal IG, foi acionista do Banco Espírito Santo, português. O portal foi fundado por outros grupos financeiros, o GP Investimentos e o Opportunity, tendo como sócios fundadores Nizan Guanaes, Jorge Paulo Lemann, Aleksandar Mandic e Matinas Suzuki Jr. Já o Grupo Record tem 49% do Banco Renner, localizado na região Sul do país, onde o conglomerado tem diversos negócios de mídia, como rádios, o jornal impresso Correio do Povo e as afiliadas regionais da RecordTV.

O Grupo RBS é dono da RBSPrev - Sociedade Previdenciária, a Igreja Adventista tem Financeiro uma seguradora (ARM Sul-Americana) e a sociedade previdenciária IAJA; o Grupo Amilcare Dallevo/Marcelo de Carvalho tem uma empresa de finanças, cobrança e cadastro, a Débito Fácil Serviços; o Grupo Folha tem a empresa de pagamento online PagSeguro; e o Grupo Sílvio Santos tem o Baú da Felicidade Crediário e a Liderança Capitalização (Tele Sena), ambos negócios impulsionados pela sua rede de TV, o SBT.

No setor imobiliário, encontramos grupos de comunicação que possuem também administradoras de imóveis, incorporadoras e negócios relacionados, como hotéis e shopping centers. O Grupo Objetivo é de propriedade de João Carlos Di Genio, maior proprietário de imóveis de SP, que aluga prédios para os próprios negócios de educação do grupo, atividade de onde tira a maior parte de seus lucros. Suas empresas imobiliárias têm capital de quase 1 bilhão de reais.

O Grupo SADA é dono da empresa I.B.I Imobiliária Brasil Itália; o Grupo Sílvio Santos tem a incorporadora Sisan; a Igreja Renascer em Cristo tem o hotel-fazenda Renascer, que recebe, entre outras coisas, retiros espirituais da própria igreja; o Grupo Ongoing possui a empresa de engenharia civil Ongoing Infraestrutura, Oncasas Engenharia e Construção, e o Grupo Alfa possui a Rede Transamérica de Hotéis.

Nas afiliadas a situação de repete. O Grupo Sá Cavalcante, dono da TV Capixaba (afiliada da Band no Espírito Santo) e da Band News FM ES, atua nos setores de incorporação imobiliária, shopping centers e franquias: possui seis shoppings nos estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo, Maranhão, Piauí e Pará e outros dois em construção. Outro grupo do Espírito Santo, o Grupo Buaiz, que possui afiliadas da Jovem Pan, da Jovem Pan News e da RecordTV em Vitória (ES), tem também empreendimentos imobiliários, um shopping center (Shopping Vitória), além de negócios nos setores de alimentos, logística e operações portuárias; um dos integrantes da família, o médico Luiz Buaiz, foi deputado federal (PSDB, 1994-1998). O Grupo Diário de Comunicação, que possui a afiliada da RecordNews em Manaus (AM), além de jornais impressos e um portal, é dono também de uma administradora de imóveis, um posto de gasolina e uma concessionária de automóveis. Já o Grupo SIM, proprietário da afiliada da RecordNew no Espírito Santo, e de outros veículos de TV, rádio e impressos, possui também empresas nos setores imobiliário, de hotelaria, agropecuária e concessionárias de automóveis; o dono do grupo, Rui Baromeu, foi prefeito da cidade de São Mateus (PMDB, 1997-2000).

Além disso, muitos dos sócios – os milionários e bilionários donos da mídia – investem seus lucros neste mesmo tipo de patrimônio que gera ainda mais lucro a partir da especulação imobiliária. Entre eles, José Roberto Marinho, Roberto Irineu Marinho e João Roberto Marinho, do Grupo Globo; Aloysio de Andrade Faria, do Grupo Alfa; Carlos Sanchez, do Grupo NC, ligado ao Grupo RBS; e os bispos da Igreja Renascer em Cristo.

Agronegócio

As relações entre os grandes grupos de mídia brasileiros e o agronegócio, um dos principais setores econômicos do país, são antigas. A Folha da Manhã S.A. foi formalmente constituída em 1931, tendo então no seu quadro de diretores Otaviano Alves de Lima (proprietário), Rubens do Amaral, Diógenes de Lemos Azevedo, Guilherme de Almeida, Pedro Cunha e Olival Costa. Otaviano de Lima provinha de família tradicional e reforçou a adoção de nova linha editorial na empresa, voltando sua atenção para os “lavradores de São Paulo”, como designava os proprietários de terras, principalmente os cafeicultores. A aproximação entre os diários e as oligarquias, na verdade, já era um processo em andamento. O traço marcadamente paulista das folhas tinha motivado sua oposição à Revolução de 1930, que retirou as oligarquias de São Paulo e Minas Gerais do controle sobre o poder político nacional. Tal movimento seria mantido a partir de 1945, quando José Nabantino Ramos assumiu a direção das três folhas. Nabantino tinha ligações com o general Eurico Gaspar Dutra, recém empossado como chefe do governo federal. Já um dos financiadores do negócio e novo diretor-presidente da Folha da Manhã S.A.. Alcides Ribeiro Meireles, tinha interesses agrários.

Essa mesma ligação pode ser observada hoje em outros grupos: João Carlos Di Genio, dono do Grupo Mix de Comunicação/Grupo Objetivo, tem 5 fazendas de produção de gado Nelore e reprodução de animais, em parceria com sua universidade, a UNIP. Outros produtores de gado Nelore são os donos da TV Vitoriosa (SBT Uberlândia, MG) e da TV Goiânia (Band Goiânia, GO) e também donos da Associação Salgado de Oliveira de Educação e Cultura, mantenedora das Universidades Universo e Unitri. Já o Grupo Alfa é dono da Agropalma, empresa de extração de óleo de palma, além de uma empresa de produção o de couro. A família Marinho também tem fazendas e empresas de produção agrícola.

Essa relação com o agronegócio pode ser observada tanto nos investimentos financeiros quanto na produção de conteúdo das mídias. O Grupo RBS, cujos acionistas são proprietários de terra, criaram o Canal Rural de TV, em 1996, posteriormente vendido para a J&F Investimentos, controladora do Frigorífico JBS, em 2013. A família Saad, do Grupo Bandeirantes, também proprietários de terras, possui o canal de TV a cabo Terraviva e, na Band News, o Jornal Terraviva reapresenta notícias sobre o agronegócio produzidas pelo canal especializado. Em 1989, a família teve parte de suas terras desapropriada para a Reforma Agrária.

Outros setores

No setor de logística, transporte e operações portuárias, aparecem ao menos dois grupos. O grupo SADA, cuja principal empresa é a SADA Transportes e Armazenagens S.A., possui também as empresas correlatas: SADA Logística; Auto Service Logística; Sada Logística e Armazenagens Gerais; TNorte Transportadora de Veículos; Transzero Transportadora de Veículos; Brazul Transportadora de Veículos; Dacunha SA; Deva Iveco; Erta Automotive; OMR Componentes Automotivos Brasil; Power Locadora de Veículos. Também o Grupo Buaiz, um dos maiores grupos econômicos do Espírito Santo, dono da TV Vitória (RecordTV ES), já citado por ter negócios nos setor imobiliários, possui empresas de logística e operações portuárias.

O setor de energia também vem crescendo na lista de investimentos dos grupos de comunicação. O Grupo SADA possui a Deva Distribuidora de Combustíveis, a SADA Bio-Energia (usina de álcool de São Judas Tadeu), a Eber Bio-Energia e Agricultura Ltda (usina de álcool de Montes Claros), a Berc Etanol e Agricultura Ltda. (usina de álcool de Aragarças) e a Jaíba Energética (usina de álcool de Jaíba).

Conflitos de interesses

Alguns conflitos de interesses que surgem dessas relações são evidentes. Outros demandariam uma pesquisa mais aprofundada sobre o conteúdo do que é veiculado em cada mídia. Entre as relações evidentes, podemos citar a existente entre a Rede Globo e a Rede TEM, conjunto de emissoras afiliadas que levam a programação da Globo para 318 dos 645 municípios do estado de São Paulo. Seu maior acionista é José Hawilla, também ex-funcionário da Globo, hoje proprietário da Traffic, empresa especializada em marketing esportivo, responsável pelo marketing da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e da Seleção Brasileira de Futebol, detentora dos direitos comerciais da Copa América, Copa Mercosul, torneios pré-olímpicos e campeonatos sul-americanos sub-17 e sub-20. Os jogos de futebol são responsáveis por grande parte da audiência das emissoras de TV e de rádio no Brasil e os direitos de transmissão são motivo de disputa entre emissoras. A Rede Globo possui os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro (CBF), da Copa do Brasil (CBF), de campeonatos estaduais como Rio de Janeiro e São Paulo, Libertadores da América e Copa Sul-Americana.

Os dados apresentados permitem notar também que as análises sobre as relações entre o setor de comunicações e outros setores econômicos não pode ser dissociada da análise das relações existentes entre esses grupos de comunicação e grupo econômicos com a política e, ainda, com as disputas religiosas que acontecem, atualmente, no Brasil.

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